Traumas de infância: tire suas principais dúvidas sobre o assunto

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A infância é um período decisivo na vida de todos nós. As vivências boas e ruins que acontecem ficam marcadas no nosso inconsciente e tendem a vir à tona ao longo da vida. Por isso, muitas vezes, os traumas de infância podem ser criados, trazendo consequências psíquicas no futuro.

Mas, então, o que são esses traumas e como identificá-los? Quais são os impactos que eles causam? Não vou negar que compreender as respostas dessas perguntas não é tarefa fácil, já que necessariamente implica olhar para algumas questões pessoais que geram desconforto.

Pensando em ajudá-lo a reconhecê-los e trabalhá-los para conquistar uma vida melhor, eu desenvolvi este artigo com as principais informações sobre os traumas de infância. Boa leitura!

Afinal, o que é trauma?

Para compreender o que são os traumas de infância e como eles acontecem, é necessário entender, antes de tudo, o que são os traumas. Se nós tirarmos o foco da questão emocional, podemos compreender o trauma como uma memória que vem à tona por meio de um gatilho que remete à experiência vivida.

Em outras palavras, ele é formado a partir de uma vivência do passado que volta à consciência por meio de outra experiência que está acontecendo. Nesse sentido, tal experiência deve ter, em algum nível, uma relação com a memória criada, para que traga as lembranças ao consciente e faça o sujeito reviver aquela história por meio de outra percepção.

Isso quer dizer que uma situação gatilho pode remeter a uma experiência traumática da infância que tenha um fundo fisiológico. Por exemplo, é possível que alguém, ao sentir o cheiro de leite, sinta náuseas em função de uma vivência que teve quando criança com esse alimento.

Além disso, as situações que ocasionam os gatilhos podem se tornar ansiogênicas, fazendo com que você se sinta incomodado e angustiado de passar por aquela experiência, muitas vezes, sem saber o porquê disso.

Trauma emocional

No tópico anterior, você pôde perceber a existência de mais de um tipo de trauma, certo? Quando falamos de questões físicas, ele pode vir a partir de um acidente ou de uma vivência negativa que provoca sintomas no corpo. Mas e quando a experiência é no campo das emoções?

Pode-se dizer que uma vivência negativa que se relaciona com os nossos sentimentos, pensamentos e emoções dá origem ao trauma emocional. Nesse sentido, ele é caracterizado como a consequência de um mal-estar — ou dano emocional — que surgiu em uma determinada situação, ficando marcado na nossa memória inconsciente.

Por exemplo, vamos imaginar um cenário em que uma criança sofre uma repreensão intensa na sala de aula pelo professor ou por um colega de classe ao apresentar o seu trabalho para todos, sendo envergonhada pelos outros. Caso ela não tenha uma inteligência emocional bem desenvolvida, pode perceber essa situação como ameaçadora e, então, gravar essa memória no seu inconsciente para se proteger no futuro.

A partir desse momento, a experiência traumática pode se instalar. Assim, a criança apresenta certa tendência a desenvolver comportamentos introspectivos, como a timidez, além do medo de falar em público para se proteger da situação ameaçadora que aconteceu.

Nesse sentido, ao longo da sua vida, quando ela se deparar com uma situação de exposição, pode se sentir ameaçada e relembrar a sua vivência quando criança — ainda que a memória não venha com total nitidez, podendo vir à tona a partir de sentimentos, como ansiedade e nervosismo.

Por isso, é fundamental que nós, enquanto adultos, tenhamos coragem e abertura para olhar para a nossa infância e descobrir as experiências que nós passamos, a história que carregamos e as influências que sofremos quando criança.

O trauma de infância influencia no processo de formação da identidade?

Uma dúvida que sempre surge quando se fala em traumas de infância é a sua relação com a formação da identidade. Isso porque a infância é o período de desenvolvimento e consolidação de uma personalidade, já que nós conhecemos o mundo a partir dessas primeiras experiências.

No entanto, ela não é decisiva no processo de formação da identidade. Isso quer dizer que todas as situações que acontecem ao longo da vida contribuem para a construção de quem você é e da forma com que você se relaciona consigo, com o mundo e com os outros.

Quando alguém sofre um trauma de infância, pode ter facilitado o desenvolvimento de características específicas de personalidade, como o medo de se relacionar com os outros, baixa autoestima, dificuldade de lidar com o fracasso etc. Todas elas podem aparecer somente na vida adulta, quando a memória é reativada.

Mas, afinal, como que isso acontece? O trauma gera uma situação desconfortável e ameaçadora, colocando o sujeito em uma posição de incerteza, e a forma que ele encontra para lidar com esse problema é por meio de um comportamento que traga uma sensação de segurança.

Esse comportamento pode ser agressivo, introspectivo e extrovertido, por exemplo, e tende a se repetir em situações semelhantes à original. Nesse sentido, o sujeito procura mantê-lo para sustentar essa sensação de segurança que ele criou lá atrás, fazendo com que as repetições comportamentais aconteçam.

Em outras palavras, ele busca lidar da mesma forma que ele manejou a situação quando era pequeno, mas a partir da sua posição de adulto, buscando uma maneira de controlar os seus sentimentos e emoções — ainda que de forma agressiva ou introvertida — durante a experiência.

Isso tudo fortalece esses comportamentos, evitando uma abertura para uma nova forma de interpretar e resolver a situação traumática originária e secundária, moldando a sua identidade a partir da sua experiência vivida na infância.

Como identificar traumas de infância?

Até agora, você pôde conhecer o que são traumas de infância e como eles se relacionam com a formação da identidade. Acontece que o meu artigo não ficaria completo se eu não falasse as suas formas de identificação e como trabalhá-los no dia a dia.

Uma das melhores maneiras de identificar os traumas de infância é por meio de frases. Afinal, eles atravessam o cotidiano de qualquer pessoa e ficam evidentes nos discursos e nas palavras emitidas, tanto em situações estressantes quanto em momentos de descontração.

A seguir, você pode conferir as principais frases que podem inferir um trauma de infância. Vamos lá?!

“Eu não tive uma infância”

Todos nós tivemos infância — ela sempre esteve presente e constitui uma parte importante da nossa vida. Acontece que algumas pessoas reprimem suas memórias desse período para não reviver os acontecimentos angustiantes.

De forma geral, não há nada de errado em esquecer as experiências — é um comportamento natural de proteção da saúde mental. No entanto, se a sua ansiedade e o seu nervosismo atrapalham o seu cotidiano, olhar para a sua história e tentar relembrar o que foi vivenciado enquanto criança é um bom passo para transformar a sua qualidade de vida.

“Parece que eu perdi algo, mas não sei bem o que é”

Essa fala está muito relacionada com a sensação de perda de si mesmo, como se o sentimento de falta fosse uma constante na sua vida. Isso pode acontecer por diversos motivos, como a repressão de memórias importantes, a perda de pessoas significativas ou um período dissociativo.

Assim, é possível que as pessoas que apresentam essa fala tenham certa dificuldade em lidar com perdas, além de sempre estarem em busca de algo, procurando novos cursos e formações, processos de autodesenvolvimento, trabalhos, enfim, tudo aquilo que, de alguma forma, poderia preencher o vazio que é sentido.

“Não gosto de pensar sobre mim”

Ninguém gosta de refletir sobre seus problemas, erros e frustrações, não é mesmo? Afinal, não é nada agradável entrar em contato com aquilo que nos machuca e que só trouxe coisas ruins para as nossas vidas. Por isso, é natural ter um movimento de resistência à autoanálise, já que mexe naquilo que não queremos ver.

Quando essa resistência é intensificada, é possível relacioná-la com algum trauma de infância. É como se o cérebro enviasse sinais para o sujeito informando que ele não deve se aprofundar no autoconhecimento para não relembrar aquelas experiências negativas que estão guardadas a sete chaves.

O fato é que, enquanto você não se permitir entrar em contato com aquilo que está reprimido, será difícil sair do sofrimento e da angústia que estão presentes desde a sua infância. Por isso, procure não se evitar e invista no seu autoconhecimento para ter uma vida mais feliz.

“Sempre tenho relacionamentos ruins, parece que nunca faço boas escolhas”

De todas as falas, essa é a que apresenta uma relação mais direta com os traumas de infância. Quando você passa por alguma situação de violência em casa ou na escola, tanto física quanto verbal, tende a procurar pessoas que apresentam o mesmo comportamento para criar laços afetivos, sejam de amizade, sejam de relacionamento conjugal.

Isso acontece porque, em algum nível, a criança associou a violência sofrida a uma forma de amor, como se o adulto que o violentou expressasse o seu amor por meio da agressividade. Nesse sentido, de maneira inconsciente, o adulto que passou por essa experiência pode procurar situações parecidas no futuro, para afirmar que aquela violência era, de fato, a expressão do amor.

“Não sou muito emotivo, procuro mais o racional”

A frase, por si só, não tem nenhum fundo traumático, já que diversas pessoas optam por seguir uma linha mais racional e lidam bem com essa escolha, encontrando o equilíbrio entre a razão e a emoção.

Quando essa racionalidade é intensificada, e a emoção se torna um obstáculo para o sujeito, que faz de tudo para não sentir suas dores, pode indicar a presença de um trauma de infância. Via de regra, eles estão relacionados à criação familiar que ele recebeu.

Por exemplo, muitas pessoas crescem ouvindo que chorar é para os fracos, que não se pode expressar suas emoções porque é errado e deixa os outros desconfortáveis. Isso enfraquece o vínculo que o sujeito tem com seus sentimentos, permitindo o surgimento de uma repreensão toda vez que eles aparecem.

Quais são as principais consequências na vida adulta de traumas de infância?

Ao longo deste artigo, comentei brevemente as possíveis consequências dos traumas de infância na vida adulta, como medo de falar em público, timidez, agressividade e baixa autoestima. A seguir, você pode conferir mais detalhadamente todas elas.

Antes de se aprofundar nas consequências, é importante ter em mente que os comportamentos não são determinados e não acontecem da mesma forma para todas as pessoas. Isso quer dizer que o medo de falar em público não necessariamente surge do mesmo trauma ou, ainda, é originado nessas experiências angustiantes.

Em outras palavras, você pode apresentar timidez e vergonha de se expor da mesma forma que um amigo seu, mas isso não significa que ambos tiveram a mesma experiência traumática quando crianças. E mais, não necessariamente esse medo vem de um trauma — pode ter outras origens, como relações familiares complexas.

Com isso em mente, você pode conferir mais detalhadamente as principais consequências dos traumas de infância na vida adulta a seguir, lembrando que elas se aplicam de maneira singular na vida de cada um.

Medo de falar em público e introversão

O medo de falar em público e a introversão estão, em uma primeira instância, completamente relacionados. Isso porque quem apresenta o medo normalmente assume uma postura mais introvertida, tendendo a não ter afeição pelas relações sociais.

Novamente, é importante reforçar que esse comportamento por si só não é prejudicial, contanto que o sujeito saiba lidar com essas situações angustiantes e encontre formas saudáveis de trabalhar seus medos. O que acontece é que pessoas que tiveram um histórico de traumas infantis não lidam muito bem com tais situações.

Nesse sentido, o medo de falar em público e a introversão se tornam um problema, já que o sujeito em questão não consegue visualizar formas de enfrentar suas dificuldades, mantendo o ciclo de comportamentos não saudáveis.

Via de regra, essa consequência tem origem nos traumas relacionados à escola, sobretudo de apresentações fracassadas durante a infância, repreensão de algum professor e bullying dos alunos. Ainda, o ambiente familiar também pode gerar esses comportamentos a partir do momento em que descredibiliza o sofrimento da criança.

Agressividade e impulsividade

O comportamento agressivo e impulsivo pode ser desenvolvido a partir de um trauma sério na infância. Geralmente, essa consequência está relacionada aos casos de violência doméstica e escolar, seja ela em direção à criança, seja ela entre os adultos presentes no ambiente.

Isso não quer dizer que qualquer ambiente violento necessariamente potencializará a agressividade da criança, mas pode abrir portas para a intolerância, a impaciência e crises de raiva.

Para além da violência doméstica — física ou verbal —, os casos em que os pais têm dificuldade de colocar limites nos comportamentos da criança ou os casos em que o próprio filho não aceita o limite imposto podem criar um ambiente propício para o surgimento de um trauma.

Explico: muitas vezes, é mais fácil para os pais não limitarem seus filhos, dando qualquer objeto que a criança queira para satisfazer seus desejos. Nesse sentido, ela associa determinado comportamento — chorar, fazer birra, gritar etc. — ao ganho do seu elemento desejado. Isso faz com que, toda vez em que ela não recebe o que queria, sinta-se frustrada e repita o comportamento.

Quando esse processo não é bem trabalhado com os pais, isto é, quando eles não conseguem explicar para a criança que a vida não funciona dessa forma, ela pode experimentar uma vivência traumática — ainda que singela — e ter dificuldades de lidar com os limites e frustrações da vida adulta, tornando-se agressiva e impulsiva.

Baixa autoestima

A baixa autoestima surge a partir de uma imagem distorcida de si mesmo, fazendo com que você acredite em algo de si e veja-se de uma forma diferente da realidade. É como se você colocasse um par de óculos que indicassem todas as falhas, os fracassos e as dores que você carrega.

Essa visão distorcida pode ter origem em um trauma infantil, já que, muitas vezes, os familiares e amigos apontam suas falhas — quase sempre sem perceber —, fazendo com que você veja somente as coisas ruins da sua personalidade.

Lembre-se de que isso não quer dizer que a culpa é de quem mostrou suas falhas para você. Desenvolver uma visão negativa da sua vida foi a forma que você encontrou para enfrentar o desconforto de não se sentir bom o suficiente.

Dificuldade de desenvolver bons relacionamentos

Você lembra que uma das falas que quase sempre aparecem na vida das pessoas que tiveram traumas de infância é “sempre tenho relacionamentos ruins, parece que nunca faço boas escolhas”? Pois é, uma das grandes consequências dessas experiências negativas é a dificuldade de criar bons relacionamentos.

Independentemente de serem relações de amizade, familiares, profissionais ou amorosas, pessoas que carregam traumas de infância consigo têm a tendência de desenvolver relacionamentos complicados, muitas vezes violentos, abusivos e autodestrutivos.

Além disso, o adulto pode associar essas experiências violentas à introversão, mantendo certa distância dos relacionamentos e optando por seguir uma vida mais solitária. Não é incomum que, quando decida se entregar para uma relação, ela seja tóxica e desconfortável.

Sensação de culpa constante

Por fim, outra consequência corriqueira é a sensação de culpa. Existem muitas origens para esse sentimento, como ser um filho não planejado pelos pais, ter uma criação restritiva, receber pouco afeto durante o crescimento, ter muitas responsabilidades desde pequeno, carregar um legado familiar, entre outros.

Essa consequência normalmente aparece quando o adulto pede desculpas o tempo todo, até por questões que não eram necessárias, como ao falar com alguém, entrar em determinado lugar desconhecido, receber algum carinho e por demonstrar um sentimento ao outro.

Quais são os comportamentos de quem tem trauma de infância?

Assim como são diversas as causas e consequências para os traumas de infância, também existem muitos comportamentos que são expressados por pessoas que carregam essa história de vida. Além dos já citados — introversão, timidez, agressividade, baixa autoestima etc. —, existem outros que podem trazer sérios desconfortos, como:

  • crises de ansiedade;
  • comportamentos depressivos e autodepreciativos;
  • autossabotagem;
  • procrastinação;
  • problemas de confiança;
  • dificuldades sexuais.

Às vezes, ele aparece de forma sutil, como a dificuldade de lidar com a frustração e a perda, a partir de experiências traumáticas que trouxeram esses dois elementos presentes na vida de qualquer pessoa.

Nesse sentido, uma criança que não elaborou muito bem um luto importante pode ter dificuldades de lidar com perdas, tanto de entes queridos quanto de objetos que carregam alguma carga emocional.

Como tratar traumas de infância?

Como você já deve ter percebido, resolver os traumas de infância sozinho é um grande desafio. Afinal, são experiências que ficam marcadas na história de cada um e favorecem a consolidação de comportamentos e características que formam a identidade do adulto.

Justamente por isso, é fundamental procurar ajuda para identificar essas vivências e enfrentá-las de forma saudável, potencializando características positivas que podem surgir a partir desse encontro com suas dores e angústias infantis.

Existem diversas formas de tratar traumas de infância. O importante é escolher aquela que mais se ajusta ao seu estilo de vida e que o faz se sentir confortável em vivenciar uma experiência que traz à tona aquelas lembranças desconfortáveis.

Abaixo, listei as três técnicas principais para tratar os traumas. Confira!

Regreção neuro emocional

A regreção neuro emocional é um procedimento feito em sessões e apresenta um processo de início, meio e fim bem definido. Ao se entregar para essa técnica, você entra em um estado de consciência diferenciado, abrindo-se para o seu problema e facilitando a modificação de comportamentos que trazem sofrimento.

Para quem é bastante resistente a olhar para suas dificuldades, mas quer transformar a qualidade de vida, essa técnica é altamente recomendada, já que ela atua de forma mais diretiva no seu problema.

Psicoterapia

Ao contrário da RNE, a psicoterapia tem como base um processo de mudança mais longo e aprofundado. Por isso, é difícil colocar uma data final nas sessões, já que cada atendimento pode apresentar novas direções para seguir na jornada do autoconhecimento.

Se você pretende provocar mudanças mais profundas, a psicoterapia é bastante eficiente. O importante é ter em mente que é um processo que mexe em questões pessoais e, então, pode causar certo desconforto ao olhar para aquilo que realmente o machuca.

Psicanálise

Por fim, a psicanálise é uma área do conhecimento que trabalha muito com os traumas. Isso porque Freud, o principal autor desse campo, explica que os traumas da infância são fundantes da nossa personalidade e podem retornar a qualquer momento na vida adulta.

Para quem quer se aprofundar nos horizontes do inconsciente, a psicanálise é uma excelente técnica que permite o autoconhecimento por meio de uma autoanálise intensa e eficiente.

Entender o que são traumas de infância e como eles influenciam as nossas vidas não é tarefa fácil. Afinal, são experiências que envolvem um grande sofrimento e, por isso, causam certa angústia de serem olhadas e resolvidas. Lembre-se de que não existe problema em procurar ajuda caso sinta necessidade de trabalhar isso de maneira mais profunda.

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